sábado, 21 de maio de 2011

Um Filme Falado - Enquadramento histórico

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Uma professora de história em viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo segue a trama da civilização, vista como utopia do mundo actual. A linguagem criadora de civilização, a contradição de ser português – o mais universalista dos europeus, o único que não fala a própria língua fora do seu país – ilustram a realidade da União Europeia.
Na verdade, o filme encara não a linguagem como acção criadora da civilização, mas sim o conjunto das acções humanas (a linguagem sendo apenas uma delas), sejam elas boas ou más, as fontes criadoras do processo civilizacional. Processo esse não-linear, contraditório e muitas vezes extremamente violento. Nesse sentido é eloquente o diálogo entre a mãe e a filha quando a primeira faz referências às guerras sucessivas, religiosas e económicas que acabaram por fundar o substrato cultural, não-homogéneo, do continente europeu, em que elementos da cultura greco-romana, árabe e de várias religiões se misturam, e que seus respectivos povos ao longo dos séculos cultivaram. A linguagem aparece como elemento contraditório pois ela é, em primeira instância, a marca da diferenciação. Em segunda instância, (quando o processo civilizacional consegue avançar e as pessoas passam a compreender outras línguas que não a sua própria língua) assinala a possibilidade de real integração entre as pessoas e realidades culturais diferentes. O que o filme ilustra é exactamente o momento de ruptura entre os povos, pela incapacidade de se fazerem entender apenas através da língua.

No filme, não é o português o mais universalista dos europeus. Essa pretensão Manoel de Oliveira, do alto de sua imensa sabedoria, não a almejou. Muito pelo contrário. Ao discutir o papel da Grécia na formação da Europa e da própria civilização ocidental, a personagem que no filme representa a cultura helénica aponta a contradição: apesar dessa dívida imensa do mundo moderno aos gregos, a sua língua hoje em dia só é falada na própria Grécia. Ou seja, a linguagem, que num primeiro momento foi o veículo da transmissão dos ideais gregos de democracia, humanismo e filosofia, a partir de determinado instante perdeu importância, embora os valores por ela transmitidos tivessem perdurado.
Nenhum povo é mais ou menos universalista do que outro. Todos dão contribuições para o processo civilizacional, a partir de diferenças e de experiências culturais específicas. É o assunto da conversa no restaurante, ao jantar, entre um americano, uma francesa, uma italiana e uma grega. Todos falam nas línguas pátrias e todos se entendem. Aliás, diz a professora, o português é falado não apenas num lugar, em Portugal, mas em várias e populosas regiões do mundo: na América do Sul, na África e na Ásia.
Não é a realidade da União Europeia a questão que o filme aborda mas, de forma bem mais ampla, a questão presente no mundo contemporâneo, a do choque civilizacional entre as culturas hegemónicas no mundo ocidental e no mundo árabe, o radicalismo crescente entre grupos representativos desses universos culturais.
FONTE: WIKPÉDIA

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